Não sei qual é o género, ou o nome. Apeteceu-me e eu escrevi, e nunca dou titulos a coisas assim. Aliás, sou péssima com títulos.
Tinha as mãos gretadas pelo frio do pico do Inverno, naqueles fins de Fevereiro que esfriara tanto que ninguém saia de casa sem pelo menos três camadas de roupa.
Numa pasta, assente na curva da minha anca, estavam arquivados os projectos de Marketing, e apetecia-me atirá-los ao mar, para que se dissolvessem na água que estava tão gelada que chegava a parecer quente, vogando para longe, para onde não me pudessem assombrar mais com o seu falhanço tão redondo.
O meu projecto, que me custara três meses de árduo trabalho, fora rudemente carimbado de «Terrível», em três segundos. O trabalho que roubara tantas horas da minha vida, tinha sido caracterizado de «algo sem ponta que se lhe pegue», como se fosse um trabalho de criança. Um trabalho que não leva três meses cuidadosos e esforçados a ser elaborado.
Chumbada no meu trabalho experimental, que concluía os meus meses de estágio, não tinha nada. Estava, tanto quanto o sabia, condenada à fome e desalojada, desde o momento em que saíra da sala de reuniões.
Sentei-me num banco à beira da estrada, frio como o gelo, a colar-me os dedos. Tentado proteger-me do frio, enrolei mais o cachecol, e pensei no quão bom teria sido se tivesse ido para artes. Talvez fosse uma “carreira instável”, nas palavras de toda a família, mas era mais apaixonante e, por certo, mais útil que a carreira medíocre que estava a construir no Marketing.
Tornei a abrir a pasta, e estava tudo lá, as folhas tão brancas como quando entrara, mas de certa forma manchadas desde que saíra. Rasguei o canto de uma, assolada pelo ensejo de rasgar o resto. De que me valeriam todos os slogans, todos os planos, se tinha sido posta de lado? Naquele momento, interrogava-me se os empresários que me tinham expulsado sem cerimónias saberiam o quanto sofreria para continuar a viver. Tinham arruinado as minhas hipóteses de viver como as conhecia, sem despender mais do que cinco minutos, após uma hora brilhante e confiante de explicações. Pensara ver brilho nos seus olhares, interesse… Mas enganara-me, e subira alto de mais.
Arranquei uma das folha e atirei-a ao vento, arrebatada pela facilidade que tinha em destruir o meu projecto mais importante.
E depois outra, e outra, abandonadas no ar frio como se não tivessem importância –E não tinham. Já não tinham.
Via as folhas desenhar padrões engraçado no ar, rodando em piruetas, finalmente livres. Vi-as prenderem-se em postes, cair à água, rasgar-se debaixo das rodas dos carros.
E, finalmente libertada daquele peso, atirei ao ar todas as outras folhas. E também elas voaram, felizes.
Deixei a cabeça cair nas mãos, prestes a chorar, e só a levantei a custo, quando o som alto de uma buzina me chamou à realidade. Levantei os olhos, para o camião que se esforçava para limpar as minhas folhas do pára brisas. Senti-me culpada, por saber que fizera aquilo, atemorizada com os resultados, mas não verdadeiramente desesperada, porque o desespero já tomava conta de mim à algum tempo.
E, depois, sob o olhar de várias pessoas, o camião guinou na minha direcção. Vinha direito a mim, numa fracção de segunda, e não houve tempo que me sobrasse para fugir.
E naquele ultimo segundo, só conseguia pensar em como tudo teria sido diferente se tivesse ido para artes. Eu era, aos olhos dos outros, a inocente menina que morrera às mãos de um motorista incauto. Aos meus olhos, eu era apenas a falhada que, no derradeiro dos desesperos, não soubera fazer nada melhor do que provocar a própria morte.
Mas não havia tempo para pensar nisso, porque num segundo eu estava em agonia.
E depois, era só luz e escuridão em simultâneo.
E depois, era só frio, e era calor.
E depois, era só a baforada que soprava a minha vida para longe. Para o inalcançável.
Muito bom!!! :) fiquei pensando em algum titulo que eu poderia dar para seu conto, mas sou pessimo nisso também! rs..
ResponderEliminarparabens!!!
www.jordaky.blogspot.com
bjo se cuidaaa!!!!
E depois, era só luz e escuridão em simultâneo.
ResponderEliminarE depois, era só frio, e era calor.
E depois, era só a baforada que soprava a minha vida para longe. Para o inalcançável.
adorei o final \o/
Menina, como vai? Fiquei pensando... Como eu faço para falar com Bianca, já que ela não aparece no Fórum? Então, catei esse teu antigo link, na esperança de que receba uma notificação.
ResponderEliminarPor favor, apareça no fórum ou me mande um e-mail. Sinto saudade de você. ;)
Beijos!