Sob a pele de outra pessoa que não eu, escrevo o mesmo:
A aparência e o nome não são mais do que outra forma de esconder a alma.


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um pequeno Conto

É apenas uma coisa do momento... Estou a planear dar-lhe continuação, claro!


O corpete estava demasiado apertado, comprimindo-me os seios contra as costelas. As palmas da minhas mãos acumulavam gotículas de suor, tal como a fronte e as pernas, envoltas pelo emaranhado de tecidos caros e veludos quentes, todos eles azuis e negros, embora estivéssemos em pleno Verão. Nascera com o defeito de ter pés grandes, intolerados pela sociedade exigente, espremidos dentro de sapatos duros, que me partiam os dedos dos pés e me provocavam lampejos de dor a cada passada. O meu tocado estava demasiado puxado para trás, arrancando-me cabelos, sem me permitir curvar a cabeça.
Mas, obviamente, ninguém via isto. Tudo o que a multidão via era uma jovem senhora, de cabelos castanhos brilhantes, lábios carnudos e pele branca Perfeita, etérea e jovial. O exemplo da filha perfeita. O exemplo da esposa perfeita. O exemplo da amante perfeita. E eu, como menina obediente, sorria e não me queixava, fortuitamente destacada na posição onde estava mais à vista de todos os possíveis pretendentes.
À dois meses que não se falava de outra coisa. Já tinha catorze anos, e o tempo não perdoava. Estava agora mais graciosa e mais bela do que nunca, estava na altura de casar: E, com sorte, apanhavam um Duque, alguém importante, alguém rico. Não importava sequer se me trataria bem, ou se me levaria para lá das fronteiras. Queriam um bom marido, que me assegurasse posição e que trouxesse posição ao resto da família. Tinha nascido para isso, pelo erro de ter nascido rapariga. Tinha nascido como uma peça de mobília, que tinha de ser perfeita ou era inútil. E jamais alguém me ouvira queixar da posição.
O banquete fora secretamente dado em minha honra. Era suposto serem as bodas da minha irmã, mas ela já cumprira o seu papel. Agora estava na minha vez, e eu ofuscaria todas as outras. Achava, mas não dizia, disparatado que tentassem um casamento bom a seguir ao outro. E o dinheiro para o dote? Todos achavam que a minha beleza e graciosidade compensaria um dote empobrecido, mas eu sabia que estavam enganados. Os homens queriam primeiro o dinheiro, depois um filho, depois algo que governar, seguido de uma posição. A esposa vinha muito depois, e a beleza desta não a faria subir mais do que meia dúzia de posições na lista.
Martelava um unha insistente no braço da cadeira. Escorregou-me a mão húmida, fazendo-me dar com o dedo num canto, retorcendo-me a unha. Mordi o lábio para abafar um pequeno grito de dor, e depois compus uma expressão segura, novamente aquele antigo misto de desafio e expectativa, tão velho truque que, para ser honesta, ainda enganava muitos moços, todos eles inexperientes, que tinham de ser chamados à atenção pelos pais ou tutores. Os rapazes eram tão estupidamente ignorantes, mocinhos apaixonados, aspirando à fortuna e ao amor de uma bela mulher… Tendo nascido numa posição inferior, a minha mente está repleta de jogos, de desafios. Tudo o que observei e aprendi para conquistar o amor ingénuo – E um desses truques é o sorriso confiante, o desafio. É o truque mais básico, o primeiro a ser empregado, mas ainda assim apanha muitos nas suas malhas.
Vejo alguém subir as escadas, de encontro à mesa principal. É um rapazito conhecido, sabido por encantar algumas das mais experientes jovens damas. Não é importante, mas o que lhe falta no titulo está implícito na sua atitude. Sabemos que só escolhe as mais belas, e até as casadas desejam em segredo ser cortejadas por ele, só para poderem negar-se, para poderem ter paz de espírito em relação à sua beleza.
Não vou mentir dizendo que o meu coração não falhou duas batidas quando o vi subir. É uma audácia, quase um crime, vir chamar-me à mesa de jantar, de onde vejo bem todas as danças e representações, convidando-me para dançar quando nem sequer a isso me dispus. Mas, como sei que vai fazê-lo, sorriu de forma convincente, e não chamo ninguém. Finjo que não o vejo, embora espreite pelo canto do olho.
E, no entanto, fico chocada ao ver que não se dirige a mim. Pegou na mão da minha irmã Jane, beijou-a, e felicitou-a pelo casamento. Ela fica deliciada, e olha-me de soslaio para ver se fico irritada por ter sido ofuscada. Mas eu prendo os olhos à dança lá em baixo, fingindo não ver nada. E Jane acredita e fica enfurecida, porque a inteligência e a perspicácia não são os seus fortes. Teve sorte em captar a atenção de alguém, aquela rapariga atrasada.
Jane prontifica-se a dançar com ele, e descem juntos. Decido nessa altura que não podia ficar para trás, sorrindo como uma tonta. Tenho de jogar o meu próprio jogo.
Levanto-me da mesa, rodeio todos os velhos e todos os cansados, e desço também. Arranjo par no primeiro segundo, e rodopio com ele pela pista. Os anos que passei na França ensinaram-me a dançar melhor que todas as outras. O meu pé sempre ágil, sempre mais rápido, desliza quando os outros escorregam. É sempre dado algum espaço à pequena dama, a mais graciosa e bondosa, aquela que esconde um jogo intrincado, o olhar de uma víbora, sob cortinas de doçura e desafio.
E passo de braço em braço, invejada pelas mulheres, desejada pelos homens. A todo o momento, à um novo braço prestes a agarrar-me a meio de um volteio mais solto, e os homens odeiam aqueles que roubam a sua vez. Parece que já dancei com todos os rapazes do castelo, estou afogueada, ofegante, tonta e cansada, depois de um dia a tentar cativar as atenções durante um torneio, o dia em que felicito os vencedores com um lenço bordado, e eles sorriem, corados, adorados, enganados. Um atrás de outro, corro-os, persigo-os, e asseguro-me de que estão a ficar perdidos por mim. E um, com maior fortuna e maior sorte, casará comigo, sentir-se-à amado, terá uma bela noiva, e poderá gabá-la, enquanto os outros carpem as mágoas de terem nascido mais pobres, menos relevantes.
Hei-de rir-me quando esse jogo estiver terminado. Serei um cavalo cansado da corrida, mas sempre vitorioso.
No entanto, estou demasiado cansada e apertada para permanecer no salão.
Corro por entres mares de braços e de saias rodadas, e escapo-me do salão principal. Corro pelo castelo sombrio, passo pelos guardas caídos de bêbados, e suspiro o ar quente do Verão, finalmente livre para abrir os olhos e correr, sentido a brisa saudável do ar livre, esquecendo a multidão ansiosa que me espera.
Em silêncio, apreciando a paisagem, caminho até ao rio, que faz um burburinho de cristal ao passear-se pelas margens.
Lá, descalço os sapatos apertados e abano os dedos no ar. Afinal, sou só uma criança, para além dos jogos de amor e dos pretendentes ansiosos. Afinal, gosto tanto de chapinhar nas poças quanto uma menina pequena, filha de dois plebeus.
Ajoelho-me na relva cuidada e fresca, para poder tocar a água. Passo água pelo rosto afogueado, pelos braços desnudados quase até ao cotovelo. Depois, sento-me na margem e mergulho os dedos vermelhos e em ferida na água, que parece mais fria devido ao calor.
Sinto, após uns minutos, que em breve terei de voltar, terei de dançar mais um pouco e, mais tarde, sentar-me junto dos jovens que farão serão, conversando e jogando um pouco, como uma criança não devia fazer. Se cá fora sou só uma criança pequena, lá dentro sou uma adulta. Terei de me comportar como tal, mesmo sendo eu pequena. A idade em anos não conta para mim, porque a minha cabeça cresceu para lá das outras.
-Uma dama sozinha, tão bonita, tão formosa, que chapinha na água como uma pequena camponesa? Para onde foram as vossas danças tão alegres, senhora?
Por pouco não vou de cabeça ao rio, com o susto. Rodei a cabeça e lá estava ele, um rapazito pequeno, filho de um Duque. Este tinha uns olhos sabedores, não era como as outras crianças. Sabia que era inteligente e erudito. Um estudioso. Mas aqueles olhos revelavam que sabia muito acerca da natureza de uma mulher, e não me olhavam de forma calorosa. Eram quase frios.
Não lhe respondi, e ele sentou-se como se tivesse sido convidado.
-A quantos homens fizestes olhos bonitos hoje? Trinta? Quarenta? Acaso sabeis os nomes deles, senhora?
Abano a cabeça perante tal pergunta, sentindo-me estúpida nesse mesmo segundo por ter revelado as minhas fraquezas.
-E acaso contais-me entre eles?
Torno a não responder.
-Então, não sabeis que fui eu a quem vós pregastes um beijo na bochecha, por ter ganho o torneio. Fui eu aquele a quem entregastes o vosso lenço.
E tirou do bolso do formal casaco um lenço de seda azul, com a insígnia da família a prata, e um grande M de Margaret a fio de ouro.
-Creio que o quereis de volta –e atira-mo, de forma rude, como se fosse o dono de uma taberna e não o filho de um duque.
O meu olhar avassalado percorre-o. Nunca me tinha sido devolvido um presente.
-Era para vós. Por terdes ganho o torneio –teimo, fingindo a inocência. Ele solta uma gargalhada amarga.
-Deve custar-vos caro cada lenço desses. E para que o quero eu? Não ficarei deliciado, a cheirar o seu perfume de rosas e fantasiando convosco como todos os homens. Eu sei que não passais de uma ordinária, apanhando o mais alto que podeis.
Fico pasma. Quem era ele para me chamar ordinária, como se não fosse mais que uma camponesa? Do que uma mulher velha num bordel?
Enfio os sapatos e puxei do meu lenço, alisando-o.
-Devíeis ter vergonha e cuidado. Tendes razão, não mereçais qualquer prémio.
E começo a afastar-me. Ele, porém, permanece no seu lugar, e solta uma gargalhada amargurada.
-Correi à vossa vontade, mas não poderás fugir-me. Sabeis, por acaso, que em breve estaremos prometidos?
Ao ouvir isto, estaco, petrificada, e volteo-me para ele.
-Não minto, acreditai. E sinto tanto por isso como vós. Tanta beleza desperdiçada em alguém tão esgalgado, creio?
Arregalo os olhos para o meu futuro marido. Era tudo menos esgalgado. Tinha um corpo forte, um cabelo negro espesso e uns olhos verdes bonitos. O rosto era digno, altivo. E era, sem duvida, inteligente, Porque se diria ele, cheio de posição e de qualidades, um pobre rapaz esgalgado, condenado à eterna ofuscação da mulher?
-Esgalgado? –dei voz às minhas divagações.

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