Sob a pele de outra pessoa que não eu, escrevo o mesmo:
A aparência e o nome não são mais do que outra forma de esconder a alma.


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

E um Pouco sobre o Meu Estudo... (2)

Há dias andava eu a passear pela biblioteca (Eu sei, que nerd, mas estava real e desesperantemente disponivel xD) e encontrei um livro bastante interessante. Não era sobre este assunto, até acho que era um manual antigo, mas estive a lê-lo e absorver tudo aquilo e acabei por desenhar algo na minha cabeça que se aproxima muito de um esquema anti-bloqueio-de-escrita.
Então, a questão é a seguinte:
É um exercicio para melhorar o uso de diálogo, para torná-lo mais coerente e fluido... Aconselho apenas usá-lo quando estiverem bloqueados no que toca á escrita, porque esta deve ser natural e não arquitectada por meio de esquemas... Mas até acho que este dá jeito, embora cada escritor (se assim me posso auto-denominar) tenho as suas... Digamos, pancas.
Então, vou utilizar duas personagens da minha autoria, a Evellyn e a Genna, para criar este diálogo. Isto porque é mais facil para mim escrevê-lo se ambas as personagens tiverem personalidade e vida.
Posso ajudar dizendo que ele começa com a Evellyn, mas daí são capazes de se perder.


-A sério, não lhe ligues...
-Olha quem fala!
-Porquê?
-Nada...
-Oh, não sejas parva! Porquê?
-Por favor...?
-Bem, eu vi a maneira como tens sempre os olhos colados a ele.
-Ele quem?
-Não te faças de desentida, menina, eu consigo olhar em várias direcções ao mesmo tempo...
-É, como uma cobra. Ou és só estrábica?
-E usalos para manteres o Josh e a mim debaixo de vista?
-Uso-os para manter todos debaixo de vista. É assim que se caça...
-Estás a chamar-me rato?
-Eu prefiro passaros... Sabes, os pequeninos que cairam porque ele estava demasiado cheio?
-Não tens resposta para esta?
-Queres que diga o quê? Pelo menos não caí do ninho porque ele tresendava...
-Estás a dizer que eu tresando?
-A alcol, talvez...
-Eu sei... Mas o que queres que faça?
-Para além de que não era a única, eu vi-te muito animada na outra noite?
-Referes-te áquela em que o Colin ficou acidentalmente com um buraco de dez centimetros de diametro no peito? Oh sim, foi uma animação...
-Bem, ele está vivo, certo? Para além de que acabamos por nos desviar?
-Achas? Queres mesmo que insista?
-Não, deixa estar.

Pronto, talvez nenhum de vocês tenha percebido, mas isso é porque criei esta cena a partir de um manuscrito, de uma parte de um original que ainda não comecei, mas não era exactamente essa a questão. Talvez se tenham perdido aqui no meio, e isso acontece por uma razão muito simples: Falta aqui um sinalizador, algo que nos diga quem disse o quê. Este é o segundo passo para a criançaõ do diálogo. Comecem por escrever as frases do diálogo numa folha (até podem experimentar fazê-lo agora. Imaginem duas personagens vossas a falar ou, então, finjam que duas personagens de livros distintos se encontram. Por exemplo, o Edward Cullen e o Erik Night (para aqueles de vocês que são fãs de vampiros xD) ou Lord Voldemort e Sauron (esta é a minha ver~sao ainda mais nerd). Arranjem algo que esteja no vosso campo de leitura e juntem as duas personagens num diálogo, que pode ser amistoso, agitado, sedutor... Mas juntem-nas e comecem a escrever.), e agora nomeiem que disse o que, ao géneo do texto dramático.


Evellyn:-A sério, não lhe ligues...
Genna:-Olha quem fala!
Evellyn:-Porquê?
Genna:-Nada...
Evellyn:-Oh, não sejas parva! Porquê?
Evellyn:-Por favor...?
Genna:-Bem, eu vi a maneira como tens sempre os olhos colados a ele.
Evellyn:-Ele quem?
Genna:-Não te faças de desentida, menina, eu consigo olhar em várias direcções ao mesmo tempo...
Evellyn:-É, como uma cobra. Ou és só estrábica?
Evellyn:-E usalos para manteres o Josh e a mim debaixo de vista?
Genna:-Uso-os para manter todos debaixo de vista. É assim que se caça...
Evellyn:-Estás a chamar-me rato?
Genna:-Eu prefiro passaros... Sabes, os pequeninos que cairam porque ele estava demasiado cheio?
Genna:-Não tens resposta para esta?
Evellyn:-Queres que diga o quê? Pelo menos não caí do ninho porque ele tresendava...
Genna:-Estás a dizer que eu tresando?
Evellyn:-A alcol, talvez...
Genna:-Eu sei... Mas o que queres que faça?
Genna:-Para além de que não era a única, eu vi-te muito animada na outra noite?
Evellyn:-Referes-te áquela em que o Colin ficou acidentalmente com um buraco de dez centimetros de diametro no peito? Oh sim, foi uma animação...
Genna:-Bem, ele está vivo, certo? Para além de que acabamos por nos desviar?
Evellyn:-Achas? Queres mesmo que insista?
Genna:-Não, deixa estar.


Pronto, agora cada frase foi atribuida, e já sabemos quem disse o quê, por isso podemos passar á próxima fase: Como é que foi dito. Ou entoação. Acrescentem-nos numa ou duas palavras, de forma sucinta, á frente da vossa personagem.


Evellyn(insistente):-A sério, não lhe ligues...
Genna(melindrada):-Olha quem fala!
Evellyn(admirada):-Porquê?
Genna(descartando):-Nada...
Evellyn(cansada):-Oh, não sejas parva! Porquê?
Evellyn(implorando):-Por favor...?
Genna(misteriosa):-Bem, eu vi a maneira como tens sempre os olhos colados a ele.
Evellyn(admirada):-Ele quem?
Genna(escarnecedora):-Não te faças de desentida, menina, eu consigo olhar em várias direcções ao mesmo tempo...
Evellyn(provocadora):-É, como uma cobra. Ou és só estrábica?
Evellyn(provocadora):-E usalos para manteres o Josh e a mim debaixo de vista?
Genna(ignorando):-Uso-os para manter todos debaixo de vista. É assim que se caça...
Evellyn(divertida/melindrada):-Estás a chamar-me rato?
Genna(fazendo-se de desentendida):-Eu prefiro passaros... Sabes, os pequeninos que cairam porque ele estava demasiado cheio?
Genna(desafiadora):-Não tens resposta para esta?
Evellyn(ignorando):-Queres que diga o quê? Pelo menos não caí do ninho porque ele tresendava...
Genna(melindrada):-Estás a dizer que eu tresando?
Evellyn(esclarecendo):-A alcol, talvez...
Genna(aceitando):-Eu sei... Mas o que queres que faça?
Genna(provocaora):-Para além de que não era a única, eu vi-te muito animada na outra noite?
Evellyn(irónica):-Referes-te áquela em que o Colin ficou acidentalmente com um buraco de dez centimetros de diametro no peito? Oh sim, foi uma animação...
Genna(simples):-Bem, ele está vivo, certo? Para além de que acabamos por nos desviar?
Evellyn(desconfiando):-Achas? Queres mesmo que insista?
Genna(descartando):-Não, deixa estar.



Eu sei que usei muito o gerundio... Mas de qualquer forma, não tenham medo de se repetir e não puxem pela cabeça. Imaginem apenas aquela personagem a dizer aquela frase, oiçam a entoação e descrevam-na. Ora, eu sei perfeitamente que não podem caracterizar todas as frases, por isso têm que eliminar aquelas em que a pontuação ou a simples forma como o dizem esclarece tudo. Mas, bem, para além de tudo isto, têm de haver articulações no vosso diálogo. Acções e pequenos gestos, olhares, movimentos, pensamentos... Isto porque no nosso dia a dia jamais falariamos por falar. Á sempre um movimento, um pensamento... Um milhão de sentimentos, cores, olhares e movimentos... E ´´e dever do escritor passar para o papel algo palpavel. Algo que poderia realmente estar a acontecer. Um diálogo vivo, que se escreve sozinho. é dever do escritor fazer com que nós acreditemos que, mesmo se quem estiver a falar viver num universo paralelo onde combate numa guerra contra duendes sanguinários, aquilo pode estar a acontecer. Os filmes têm a vantagem de que cada actor execute uma infinidade de pequenos gestos ao mesmo tempo, o que torna tudo real, e o escritor deve fazer-nos ver um filme na nossa cabeça. Por isso, devem haver acções e pensamentos entre linhas. Depois disto, basta construir o texto. Podem usar alguns dos adjectivos para descrever o diálogo (Admiração=Admirou-se; Indignação=Indignou-se; Ironia=Ironizou) ou usar uma junção de palavras com adjectivos (Sussurou calmamente; Esclareceu num murmurio agitado; Proferiu, admirada). Também podem não utilizar adjectivos (sussurrou; disse; perguntou) ou não usar verbos, mas sim acções (-Não! -pergou num livro e enterrou lá o nariz, sem se deixar perturbar por mais ninguém. Agora estava no seu pequeno mundo tranquilo) para separar falas. Isto muitas vezes dá jeito entre frases da mesma pessoa mas com entoações ou propósitos diferentes. Agora vou reescrevê-lo de forma a que fique coerente e pronto a utilizar:



-A sério, não lhe ligues... -insitiu Evellyn.
-Olha quem fala! -protestou, num tom algo melindrado, Genna.
-Porquê? -admirou-se Evellyn, erguendo um unica sobrancelha, naquele gesto que tanto irritava a sua amiga.
-Nada... -descartou Genna, com um revirar de olhos.
-Oh, não sejas parva! Porquê? -protestou, mas Genna deixara cair os livros todos e aproveitava o pretexto para a ignorar.
Evellyn aguardou pacientemente que ela acabasse, tentando não suspirar com todas as suas propositadas delongas a recolher as folhas e a ordená-las.
-Por favor...? -implorou, quando se tornou impossivel para Genna continuar a fingir que organizava o material e ela se ergueu.
-Bem, eu vi a maneira como tens sempre os olhos colados a ele.
-Ele quem? -admirou-se Evellyn.
-Não te faças de desentendida, menina, eu consigo olhar em várias direcções ao mesmo tempo...
-É, como uma cobra. Ou és só estrábica? -provocou-a. E depois acrescentou:
-E usalos para manteres o Josh e a mim debaixo de vista?
Genna ignorou a sua provocação:
-Uso-os para manter todos debaixo de vista. É assim que se caça...
-Estás a chamar-me rato? -perguntou, sem saber se devia rir-se ou ficar ofendida.
-Eu prefiro passaros... Sabes, os pequeninos que cairam porque ele estava demasiado cheio?
Evellyn encolheu os ombros e prosseguiu, sem se dar ao trabalho sequer de ripostar, como sabia que ia irritar Genna. Ela conhecia-a como uma adoradora daquelas conversas, as suas próprias brigas educadas e passivas.
-Não tens resposta para esta? -acrescentou Genna, como ela sabia que faria. Deixou-se morder o isco.
-Queres que diga o quê? Pelo menos não caí do ninho porque ele tresendava...
-Estás a dizer que eu tresando? -ofendeu-se.
-A alcol, talvez... -esclareceu, com um encolher de ombros.
-Eu sei... Mas o que queres que faça? -o tom de aceitação de Genna fê-la sentir como se tivesse acabado de ultrapassar a linha do "amigavel"... No entanto, quando começava realmente e perguntar-se se devia pedirdesculpa, ela retomou a provocação:
-Para além de que não era a única, eu vi-te muito animada na outra noite?
-Referes-te áquela em que o Colin ficou acidentalmente com um buraco de dez centimetros de diametro no peito? Oh sim, foi uma animação... -ironizou, em resposta.
-Bem, ele está vivo, certo? Para além de que acabamos por nos desviar? -retorquiu Genna, simplesmente, abanando o cabelo negro para que este ficasse sobre o ombro direito.
-Achas? Queres mesmo que insista?
O seu tom adequadamente desconfiado pareceu alertá-la para o que acabara de dizer, e ela corrigiu-se com toda a dignidade que conseguiu.
-Não, deixa estar...
Deixaram a conversa ficar por ali, mas Evellyn, escondida pelo grande livro de História, sorria com um regozijo secreto.


Pronto. Ficou muito natural e perfeitamente adequado ao meu original. Juro-vos que, embora as ideias que utilizei no diálogo sejam de cenas em que já pensei muito, toda a discussão foi inventada no momento, e ele acabou por ficar bom sem eu ter de pensar muito, o que é melhor do que parar na mesma tecla a pensar no que vou dizer a seguir. Se não estiver a resultar, usem estes passos para desanuviar um pouco...
Desafio-vos a tentar. Arranjem duas personagens já criadas, mesmo que não sejam vossas, e sigam estes passos simples.
Vou deixá-los aqui por ordem, caso não queiram reler tudo:
1. Escrevam todas as frases numa folha em branco. Isto é importante, porque assim não têm toda a pressão de um texto por trás. Se não resultar, deitem fora e voltem a tentar, os reusltados são sempre diferentes, e é um optimo exercicio ;)
2. Como num guião, escrevam o nome das personagems por detrás de cada fala. para começar, aconselho apenas duas, mas podem ser mais, consoante o que quiserem fazer.
3. Junto á pessoa, coloquem uma emoção ou palavra que descreva a entoação. Não se preocupem em repeti-las, e usem-nas concisas.
4. Pensem na acção como se ela fosse um filme. Acrescentem gestos, pensamentos ou emoções entre falas, para tornar o texto fluido e realista.
5. Componham o texto com base nos 4 passos atrás. Cortem tudo o que for preciso, desde emoções e ajectivos a frases e movimentos, para obeterem uma compsição agradavel.

Experimentem, é um exercicio bom para treinar a capacidade de escrita e desanuviar, e o resultado pode agradar-vos tanto que acabem por utilizá-lo ;D

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