E muitas mais virão...
Volto para dentro, rodopio mais um pouco, e concentro-me em ser a mais bondosa, provocadora e bala de todas. Se antes estavam rendidos, agora os homens estavam enfeitiçados, fixando cada um dos meus movimentos. Queria ser duquesa, mas se isso implicava ser casada com alguém tão frio, alguém que não gostava de mim e não queria mudar de opinião, então negava-me a fazê-lo –porque, lá no fundo, tinha medo de ser casada com ele. E, para mais, ele era um segundo filho, por isso nem duquesa eu seria. Seria casada com um segundo filho, sem nada de especial.
Mais tarde, fico com os homens e algumas damas no salão, a conversar e a rir. Verifico que Jane saiu com o marido, depois de ter dançado durante tantas horas com William, o mocinho, que agora toca alaúde num canto, e que eu ignoro. Também não há vestígios do meu pretenso futuro noivo, mas não me ralo, uma vez que me deixou sem resposta no jardim.
Algumas damas levantam-se, e eu sigo-as na complexa dança de passos sincronizados que treinámos à alguns dias, sob uma chuva de aplausos dos homens e das mulheres demasiado cansadas para dançar, tentando esquecer que talvez amanhã já esteja prometida.
A noite é jovem, e pode ser a minha ultima noite livre.
♦♦♦
Afinal, aquela não foi a última noite.
Os dias sucederam-se com a habitual azáfama cuidada da corte, e eu não sobe de mais nada acerca desse que pode vir a ser o meu marido, Henry, excepto alguns rumores passados de boca em boca em surdina, que sentenciam que meu pai passa várias horas conferenciando com alguém em privado. E, agora, rezo fervorosamente, para que esse “Alguém” não seja o pai de Henry, ou para que se estejam a dar mal. Todos dizem que estou mais devota, um exemplo perfeito, quando na realidade rezo pelo meu próprio bem, tentando fugir como uma cobarde aos sinos do matrimónio.
Agora, bordo um lenço de um branco imaculado para o vencedor do torneio de ténis. Vai ser uma competição agradável, mais opulenta do que é por norma, e eu prometi a um grupo de jovens o meu lenço bordado à mão e um beijo na face ao vencedor. Contei entre eles um primogénito, de um conde importante, olhando-me de forma apaixonada, e eu torço para que vença.
Enfio uma bracelete dourada e um sapato em cada pé, e saio de lenço na mão. A tarde está quente e dourada, mas o campo brilha, a relva luzindo vergada, sob o peso da água com que foi regada. Todos os participantes têm uma raqueta na mão, e eu junto-me às damas debaixo de um toldo, que invejam o meu vestido magenta, bordado a fio de ouro. O meu pai ditou que, enquanto não me fosse arranjado um esposo, me vestisse o melhor possível.
Vejo os olhos do filho do conde brilharem de desejo, fixos no lenço de linho fino na minha mão, e sorrio-lhe, encorajadora.
Acompanho o jogo como se estivesse hipnotizada. Quase desespero. O filho do conde, que tanto desejava o meu lenço, é uma nódoa, não presta no jogo, e é derrotado por todos quantos jogo. O vencedor tem a cara coberta por um lenço, tentado evitar o sol escaldante, e não lhe consigo ver sequer os olhos. Espero que a sua prestação seja sinal de uma excelente educação e, daí, riqueza.
O jogo acaba. O misterioso cortesão saí vitorioso, e o rapaz por quem torcia abandona o campo em derrota. Faz-me olhos de cachorro, mas nem olho para ele, mostrando desta forma que tem de se esforçar pela minha atenção.
Dirijo-me para o rapaz oculto, e ele retira o lenço. Arfo de angustia. Lá está ele, Henry, coberto de suor, com um sorriso no rosto, que endurece quando me vê. Deixo o lenço cair, e ele tem de se baixar para o apanhar, e dou-lhe um beijo rijo, hirto, murmurando-lhe ao ouvido «Podeis devolvê-lo mais tarde, não valestes o trabalho» e saio, deixando todos a conspirar, exasperados, o que será que Henry fez para ofender alguém tão nobre, e regozijo-me com tudo aquilo.
♦♦♦
Durante vários dias, permaneço afastada de Henry a todo o custo. Sei-o furioso comigo, com a minha atitude, humilhando-o. Consigo sorrir de cada vez que mencionam o incidente, escondida por um espirro disfarçado, mas mostro-me sempre arrependida quando me encaram, como uma menina, uma vitima eternamente boa que perdeu o controlo por um segundo mas que se arrepende. E todos me acham adorável por isso, e desprezam Henry, com esgares e desculpas.
Com o correr do tempo, tudo cai no esquecimento, e eu sou livre de permanecer junto de Henry sem ser alvo de um comentário de escárnio por parte dele.
Agosto já correra até meio e pouco mais além, quando um rapaz alto e bem parecido vem ter comigo. Passeio no jardim e, portanto, posso facilmente sentar-me num banco e esperar que ele se junte a mim, o que não tarda a acontecer.
-Senhora –cumprimenta-me com um elegante aceno de cabeça, e eu dou-lhe a minha mão descorada a beijar. –Sabeis que sou, senhora?
Abano a cabeça, negativamente. Talvez fosse mais um dos muitos, ou talvez nunca o tivesse visto. Não havia diferença entre um e outro.
-Já previa –da última vez que me haviam feito semelhante pergunta, tinham-ma feito de forma dura, mas este jovem caloroso exibia um sorriso divertido –Não sou grande presença em bailaricos ou jogos. Nasci com duas mãos e dois pés esquerdos, infelizmente. Sou o perfeito oposto do meu irmão, a outra face da moeda.
E, aí, junto as peças. O rosto bonito não me é tão desconhecido assim. É bastante parecido com Henry, mas mais encorpado e, de certa forma, belo. Tem tanto de afável presente nas suas faces coradas quanto Henry tem de frieza no rosto duro. E é, sem duvida, uma presença mais agradável. Mas, ainda assim, tremo na sua presença.
-Estais nervosa? Ou doente? –o seu tom de voz tão preocupado traz-me lágrimas aos olhos, e ele fica assombrado –Sentes-vos bem?
A custo, aceno.
-Sim, oh sim, sinto-me optimamente… Mas ao que vindes vós?
-Oh… -e, de repente, uma nova sombra recobre aquele rosto tão bonito –Dar-vos uma noticia, e não creio que seja boa…
Quase me dou uma bofetada por desejar que o seu irmão esteja morto, e que ele me venha dizer as datas do seu funeral, mas controlo-me, assim como aos meus pensamentos, e esboço uma expressão curiosa.
-Ides casar-vos. Com o meu irmão, digo. Serão prometido amanhã, defronte da vossa família e da minha.
E o choque é tão grande que quase caio. Apoio-me na pedra fria como um condenado se agarra às grades da sua cela, como o último lugar. Agora, já não me sentia bem.
-Senhora? Por favor, dizei-me se estais a passar mal, quereis que mande vir um médico?
Abano a cabeça, sorvendo ar, mas sem conseguir respirar. Acabo por ceder ao braço que me estende, e deixo-me ser arrastada por aquele homem tão bondoso até ao castelo, agarrada ao peito, onde o meu coração parece querer deixar de bater.
♦♦♦
O médico veio ver-me, e mandou-me ficar na cama durante uma semana, para que depois me pudesse examinar.
Os primeiros dias passei-os com febre, suando, implorando para que abrissem as janelas, debatendo-me contra os lençóis. Mas comecei a restabelecer-me, à medida que o choque passava. Quando o médico regressou, disse-lhe que ainda me sentia mal, para não ter de sair e enfrentar o meu medo, o temor que tenho de ver Henry, triunfante, que poderá mandar-me para o campo, viver o resto da minha vida no desgosto e na desgraça.
Leio livros de historietas românticas, durante os dias, para me acalmar. Mas, durante a noite, quando a minha criada de quarto sai, dedico-me às minhas habituais leituras arrojadas, que tratam de assuntos sérios.
Jane vai partir em breve com o marido e, temendo ser contagiada, deixou de partilhar os aposentos comigo, pelo que agora estou sozinha.
No décimo terceiro dia da minha convalescença, recebo uma visita.
-Mandai-o entrar –proclamo, com a voz ainda um pouco rouca, à criada de quarto. Ela abre a porta, e o irmão de Henry torna a entrar. Ergo uma sobrancelha.
-Não tendes medo de adoecer? –interrogo.
Ele ri-se.
-De adoecer? De ansiedade? Nenhum médico comprovou até agora que isso seja contagioso… Mas não me apresentei, no outro dia… Sinceramente pensava que ia ter mais tempo.
Rio em consonância com ele, divertida e deliciada.
-Margaret Thurman, prazer. Estendia-vos a mão, mas é melhor não desafiarmos a sorte.
-Concordo plenamente –ele ri-se também – James Babington.
Senta-se a meu lado, na cama antiga de Joana, que começava a acumular poeira, que se ergue em pequenos remoinhos quando se senta.
-Dizei-me…
-Tudo.
-Porque foi que me dissestes que tinhas más noticias no outro dia? Isto é, quando me comunicastes de que estava prometida?
Ele encolheu os ombros.
-O meu irmão é não é simpático, bondoso… Não penso, de todo, que dê um bom marido.
E então, no auge da minha loucura, ouso fazer-lhe a pior das perguntas:
-E porque não vos casais vós comigo?
O seu olhar avalia-me de alto abaixo, deitada na cama, entre o coberta e o descoberta por entre os lençóis brancos, numa camisa de noite quente, o cabelo preso numa grande trança que me desce pelas costas, contrastando com a camisa. Muito provavelmente pensa, tal como eu, que este é um cenário muito intimo. Ajeito de imediato as almofadas, cubro-me novamente com os lençóis, que atirei para trás no desespero pelas noticias que me trazia, e componho outra expressão.
-Bem… Eu sou o filho mais velho. Neste caso, só tenho de arranjar a mulher com a posição mais elevada, mesmo que ela seja velha, feia, maldosa… Mas o meu irmão, ele não tem obrigações… Meus pais decidiram conceder-lhe uma donzela generosa e elegante, a mais bela das damas da corte. Entendestes? Preferiria casar convosco, claro, mas creio que o cumula da minha infelicidade se cumprirá dentro em breve.
Coloco a mão quente sobre a dele, num gesto carinhoso. É a primeira pessoa, em todo este vasto mundo, a que posso chamar de amigo. É compreensivo, afável e honesto, sem duvida o homem com quem quereria casar, por mais cheia de esquemas elaborados que eu teime em inventar. Ele seria o homem perfeito, e está condenado, tal como eu, a viver com alguém de quem não gosta, e que, provavelmente, não lhe dará o devido valor. E pelas mesmas razões: Ambos servimos apenas para ganhar posições. Não passamos de duas peças no grande jogo dos nossos pais, por mais inteligentes, bonitos e gentis que sejamos.
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